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fevereiro.2015

COMO AS MULHERES SÃO REPRESENTADAS NOS QUADRINHOS?

Texto publicado no UpDate or Die, em 05/02/2015.

Você já parou para pensar que muitos dos personagens femininos nas histórias em quadrinhos ainda ocupam um espaço marginalizado em relação aos homens?

Sim, marginalizados. Elas estão ali. Os personagens existem. Mas, na maioria dos casos, as mulheres ainda são parte secundária das HQs.

Ou cuidam da casa ou são bem gostosas ou são coadjuvantes. É só pensar, por exemplo, nas mulheres das histórias de super-heróis, heroínas ou não. Sim, há também as crianças, como a Mônica e a Mafalda. Mas, nesse caso, justamente por serem crianças, elas têm praticamente uma licença poética para falar de temas mais profundos. No caso das adultas, a maioria cumpre uma função dentro do imaginário masculino.

Mônica feminista

O fato é que ao longo da história dos quadrinhos, um universo feminino mais realista foi invisibilizado. Tem gente que acredita que isso acontece porque os quadrinhos são feitos por homens, para homens. Mas isso não é verdade. Grande parte do publico consumidor de quadrinhos é mulher. Inclusive das aventuras de herói! E, assim como toda a produção cultural, os quadrinhos também seguiram os passos do feminismo e das lutas de gênero por igualdade de direitos.

A partir da década de 1970, histórias que retratam especificamente o universo feminino começaram a ganhar um pouco mais de espaço. A francesa Claire Bretécher, por exemplo, foi uma das primeiras mulheres cartunistas a ganhar espaço de destaque internacional em um mercado que era praticamente todo dominado por homens. Seus quadrinhos fazem uma critica social e abordam com ironia a militância feminista e os comportamentos da mulher na sociedade. Hoje em dia, muitas mulheres, e até mesmo alguns autores homens, seguem desenhando histórias que representam questões sociais, tanto para denunciar diferentes tipos de abusos como simplesmente para mostrar a visão feminina do mundo. O mesmo mundo em que vivem os homens.

Claire Bretecher - Maternidad

A argentina Maitena, por exemplo, reconhecida em todo o mundo, demonstra uma clara inspiração no trabalho de Bretécher. Há também o trabalho de Posy Simmonds, da Inglaterra,Marjane Satrapi, iraniana autora do célebre “Persépolis”, Aline Kominsky-Crumb, norte-americana casada com Robert Crumb, assim como as jovens brasileiras Chiquinha e Cynthia B., e a argentina Alejandra Lunik, só para citar algumas.

Mas, essa busca por uma representação mais realista não é fácil, muito menos óbvia. Então, o estereotipo vez ou outra volta a permear essas histórias, inclusive no trabalho de algumas das próprias cartunistas.

De uma tirinha de jornal, inclusive, surgiu o interessante Teste de Bechdel, que avalia a presença e representação das mulheres não só nos quadrinhos, mas em qualquer produção cultural de ficção, seja um filme, um livro, uma série ou até mesmo um game. Alison Bechdel, premiada autora de quadrinhos, sugeriu em uma de suas tiras da série Dykes to Watch Out For, na década de 1980, um teste em que a obra têm que cumprir três critérios: cenas com pelo menos duas mulheres que tenham nomes, que estejam conversando, e que o assunto não seja homem. Parece fácil, né? Mas não é. Aliás, é justamente a simplicidade na avaliação e o alto índice de reprovação das obras que torna o teste ainda mais válido. Só para se ter uma ideia, segundo uma pesquisa feita pela New York Film Academy, mais da metade dos filmes falha no teste e apenas 30% dos personagens com falas são mulheres.

Teste de Bechdel

Parece fácil, né? Mas não é. Aliás, é justamente a simplicidade na avaliação e o alto índice de reprovação das obras que torna o teste ainda mais válido. Só para se ter uma ideia, segundo uma pesquisa feita pela New York Film Academy, mais da metade dos filmes falha no teste e apenas 30% dos personagens com falas são mulheres. Faça o teste com as suas obras preferidas e conte para a gente!

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